15.8.12

O dia que meu irmão saiu de casa



Já nem sei mais em qual livro eu li que a ética e a moral são como nossa casa, nosso ancoradouro. Isso na época que eu lia muita coisa sobre libertação animal, muita coisa mesmo. Hoje eu não leio metade, não tenho participado de muita coisa e não tenho desculpa plausível para isso.

 Só sei que éramos dois irmãos vegans em casa. Tudo bem que eu era mais militante, e sempre fui mais envolvido em ações e demonstrações sobre o que eu penso. Mas tinha sempre o meu irmão de reforço. Inclusive ele citava como um dos motivos em adotar o veganismo, a vontade de me acompanhar, me dar força.

 Mas aí eu fui morar sozinho. Levando vida de adulto, correria, dia bagunçado, mas fui tocando entre minhas obrigações e pequenos prazeres a minha identidade vegan, com o mesmo orgulho e disposição do começo.  Mas só que após alguns anos vi que meu irmão estava meio apático, se conformando com a relação especista, e toda a carga negativa que se tem em ser vegan num lugar como o nordeste brasileiro.


Não existe ainda por essas bandas o veganismo enquanto tendência política ou ideológica, é tudo uma enorme fachada para se falar de dietas e de se buscar a saúde individualmente. Aqui no ceará é meio assim.

Mas só sei que ele tava namorando, e com uma menina que nunca tinha refletido sobre a exploração animal e seus efeitos sobre a alimentação dela, mesmo assim, alegava profundo respeito por pequenos mamíferos como cães e gatos. Foi mais ou menos aí que entendi que meu irmão não ia durar muito sob a sugestão de que ser vegan poderia ser uma “limitação” para ele.


E como em um casamento onde uma das partes resolve “pular a cerca” eu pressentia no absenteísmo dele em assuntos tipicamente veganos, que ele ia nos deixar.


O dia que meu irmão saiu de casa foi um baque para mim, porque não era possível que eu estivesse mesmo vendo ele ali participando de algo que a bem pouco tempo era algo tão brutal para nós.


E a deixa para que isso acontecesse não tem a ver com essa namorada. Eles terminaram. Mas em um dia desses qualquer, de eras que não nos víamos, ele pede um hambúrguer de sei lá o que e percebo que não há mais casa. O vinculo se partiu.


Eu fico particularmente triste, porque nunca julguei ninguém, mas seria possível ficar impassível ante a decisão do meu irmão? Nossa mãe não ficou, e até mesmo ela, que esteve sempre nos criticando e martelando o quanto “éramos radicais”, (sempre insistindo que poderíamos e deveríamos abrir exceções para leite e ovos) ficou tão ou mais chocada do que eu. Chegando até a admitir e a sentir saudade do tempo que o meu mano era vegan.


Isso porque agora parece outros que velhos hábitos voltaram; como a bebida e alguns outros vícios... O que não tem ligação necessariamente direta com a escolha de ser vegan, mas que estão na dinamitação do que era a nossa ética. E que agora é uma casa para um só. Pelo menos nessa família. Mas outro dia li, e também não lembro onde... “Só que eles não entenderam um detalhe, de que um ativista nunca desiste...", não se desgasta, não se cansa. Sigo na luta. Seguimos todos, travando a cada esquina uma batalha pessoal. E acho que só assim, o conjunto da luta faz sentido. Se informando, se importando, vivendo... Se não um dia a casa cai.