24.3.11

Matéria: O dia em que a Barbie morreu

Participação: Fernando Sayuri
Matéria: O dia em que a Barbie morreu

Data: 9 de Fevereiro de 2011




Bom... esse texto é apenas um material de estudo e/ou de reflexão sobre um tema que talvez esteja muito mais relacionado com nossas próprias vidas do que imaginamos estar.
É uma história. Uma história de um rapaz. Um rapaz que estava viajando pelo mundo e que em certa ocasião conheceu suas próprias limitações entre uma atitude “radical” ou uma atitude “moderada”. E isso o fez entrar num outro campo de visão sobre seus próprios ideais.
Na verdade, eu não queria começar escrevendo as clássicas entradas de contos... como por exemplo: “era uma vez...” e todo esse blá blá bla...
Mas acontece que os fatos foram bem simples... e começaram exatamente dessa forma:

Era uma vez... um rapaz que estava fazendo uma viajem de bicicleta por alguns lugares que até então eram desconhecidos a ele.
Por muitas semanas e durante os dois últimos meses em que ele se encontrava justo nessa viagem, sempre esteve se portando de uma forma amena em relação ao contato com as pessoas que muitas vezes, num primeiro momento, não entendiam muito bem o porquê desse tal rapaz estranho a todos daquelas pequenas cidades no sul da Ásia, simplesmente não comer nada do que geralmente ali se comia: Muita carne.
Ele ainda dedicava parte do seu tempo em contato com seres humanos justamente tentando transmitir a ideia, primeiramente, de que ele mesmo não era um ser de outro mundo, simplesmente por se alimentar somente de coisas que geralmente aquelas pessoas consumiam como “acessórios” em suas respectivas refeições: Muita salada.
Esse rapaz era originário de um grande país da América do Sul. E alí, em diversas ocasiões se viu em situações realmente inusitadas.
Dentre tantas e tantas histórias para contar oriundas desses contatos, talvez a mais curiosa (pelo menos sob um ponto de vista “ético profundo”) tenha sido, ou melhor... tenha se passado em alguns poucos dias que esse rapaz chegou no vilarejo de Chantaria, ao norte de Phyton.
Gouki (vamos assim chamar o rapaz) havia decidido conhecer outras pessoas, mas o que talvez mais o tenha levado a sair com sua bicicleta do conforto do seu lar, foi justamente buscar critérios para a criação, talvez definitiva, de seus princípios morais e éticos para levar adiante.
Gouki tinha cerca de vinte e poucos anos, e metódico como só ele poderia ser, já havia se programado emocionalmente e espiritualmente para gerar uma vida a mais no planeta e encarar isso como a sua forma de construir diretamente um tal “mundo melhor” que sempre sonhara e buscara... Por isso a busca quase que final por ideias que realmente deveriam ser transmitidas, como se fosse um presente de toda a sua assimilação cultural... e que deveria ser levada adiante, justamente como uma semente que deixará dentro em breve.
Para validar todas as suas teorias, partiu então para outros pontos do seu mundo, para ver quais seriam os limites de suas crenças e quais os limites de sua própria ética.
O que passou é que ao chegar naquela pequena cidade, Gouki, como era de costume, procurava sempre se dirigir à praça central.
Ali sempre se concentravam as sedes de governo e as igrejas (principalmente ali naquele país, cuja colonização havia sido de exploração até meados do século XX e depois, apenas a independência estatal foi consolidada ao país, mas não a independência financeira), tão logo, o local onde as pessoas se reuniam...
Gouki estava viajando a pouco mais de duas semanas, dessa vez que se lançou por mais um largo período sem uma “base fixa”. Estava dessa vez, recém chegado da fronteira com o país visinho.
Estava exausto, na verdade.
Gouki estava dividindo sua aventura de bicicleta em algumas regras que ele mesmo as criou, e uma das mais utilizadas era a de que ele dormiria 2 dias ao sabor das circunstâncias e um dia em hotéis baratos. Sempre nesse ritmo, justamente para se ver obrigado a manter contatos com pessoas daquele lugar... sentir as culturas... as histórias...
Os dias mais emocionantes sempre eram os dias em que ele dormia ao sabor das circunstâncias.
Conheceu muitas pessoas. Conheceu muitos amores por onde passava. Fez grandes amigos. Trocou muitas sementes orgânicas e acima de tudo, por onde passava ele tinha quase que uma função individualista de expor seus pensamentos e absorver as impressões acerca de isso.
Gouki era um rapaz argumentativo e que sempre levou muito ao “pé da letra” tudo aqui que ele realmente acreditava.
Radicalismo para ele era apenas uma forma correta de você se guiar pela raiz da solução ao encarar um problema.
Nesse dia, Gouki chegou nessa cidade um pouco tarde, depois de um dia inteiro pedalando. Geralmente quando ele não dormia na estrada, em sua barraca, Gouki gostava dos centros urbanos, pois ficava praticamente toda a parte clara dos dias pedalando e só a noite tinha tempo para conhecer e trocar experiências com seres humanos.
Além do obstáculo da linguagem que era diferente, tudo no Gouki acabava chamando a atenção por onde ele passava.
Uma bicicleta estranha. Muitas coisas penduradas fazia dela mais uma “árvore de natal” do que propriamente uma bicicleta, além dele mesmo não ser um animalzinho humano dos mais comuns: Sempre com roupas sujas e rasgadas pelo tempo de estrada e barba já bem crescida e cabelo que não sentia um pente durante todo o período de viagem.
Em suma, Gouki gostava de chegar nas cidades, pois o sabor da estrada muitas vezes era o sabor da solidão mesmo... Nas cidades ele poderia conhecer pessoas e conversar horas e horas sobre coisas aleatórias e não raras às vezes... sobre coisas mais sérias, porém, para isso, acredito que por uma questão muito pessoal, Gouki buscava sempre aos mais velhos.
Gouki tinha quase que uma rotina de “testar” seus princípios e era quase que um sadismo de sua parte sempre querer levar até as últimas consequências os seus argumentos.
Gouki colecionava então as histórias das grandes discussões que haviam acontecido desde que saíra para essa viegem.
E dentro de um quase “repertório”, ele sempre colocava em questão temas bem complexos e quase sempre muito pesados...
Temas como aborto, consumo de uma forma geral, escravidão humana e não humana (aí, neste ponto, enfrentada pelos animais não humanos), prostituição, conceitos de uso de drogas, religião, dentre outros eram sempre abordados quase que de uma forma programada para ele.
Ele era, na verdade, um grande pescador. Ele jogava a isca, geralmente provocava o início das conversas, e com o tempo, ia dissertando ponto por ponto de seus argumentos até chegar quase sempre às suas mesmas conclusões... e então verificar as reações... se ele conseguia com isso causar contra argumentos para repensar seus conceitos...
Gouki, em geral, era muito receptivo à mudanças de seus pontos, nunca por um conformismo, mas sim depois de encontrar argumentos mais fortes.
Ele era socialmente racional demais para simplesmente aceitar sem existir um motivo por trás.
Mas isso passou a ser tão comum nos seus dias, que nem ele mais percebia quando estava se estudando ou quando ele estava simplesmente repetindo e vomitando um monte de teorias.
No tal dia que Gouki chegou à cidadezinha de Chantaria foi logo recebido com olhares curiosos, como o de costume.
Mas aí, nesse dia, ou melhor... final de dia, tudo passou a ser bem mais emocionante para ele.

Ao chegar à praça central da cidade (“Praça das Armas” era o nome da praça), Gouki estava disposto a quebrar uma de suas próprias regras, que ditava que ele sempre deveria ter um momento de algo que ele chamava de “troca de cultura”, que nada mais era do que se socializar na cidade. Mas Gouki estava cansado. Tudo que ele queria era encontrar logo um lugar para dormir e só.
Pois bem... recém desceu de sua bicicleta, no centro da cidadezinha, logo duas moças se aproximaram e uma delas perguntou se Gouki estava perdido por ali.
Gouki sabia como se portar como um verdadeiro turista quando queria!
Após alguns minutos de conversa, Sara e Madeleine se dispuseram a encontrar um lugar para Gouki ficar uns dias.
Os planos de Gouki ali, naquele momento, mudaram.
Ele começou a cogitar ficar mais tempo pela cidade do que o esperado.
Sara o levou à casa de um tio dela, o Senhor Stevan.
Um senhor um pouco grisalho, um pouco gordinho e de baixa estatura.
Parecia ser um homem do tipo brincalhão e com algumas poses, considerando que a cidade era quase rural, ele parecia ser “rico” alí naquela região.
Ele ofereceu a Gouki para ficar em sua fazenda, na saída da cidade. Uma fazenda enorme, com um campo verde enorme e com árvores quase que estrategicamente espalhadas. Uma casa mediana ficava bem no centro de tudo, e mais ao fundo, uma cabana feita de madeira (casa de Gouki por uns dias).
Stevan o levou ao lugar e disse que poderia ficar alí o tempo que fosse necessário.
Nesse final de dia, tudo que Gouki mais queria era só esticar as costas em um chão plano e dormir.
Mal desarmou todos seus equipamentos de acampamento e se enfiou no saco de dormir e despertou no dia seguinte, um pouco depois dos galos cantarem.
Gouki despertou para uma realidade que ele até então nem tinha se dado conta. Ele estava em uma chácara, quase dentro da cidade.
Gouki saiu da cabana para reconhecer o lugar. Era lindo, de fato.
Haviam dois cavalos que ficavam sempre muito perto da cabana. Haviam galinhas em uma região cercada mais ao fundo de sua cabana.
A casa onde Stevan vivia não era muito grande, mas para a média da cidade, era uma casa e tanto!
Dois carros que pareciam ser caros na garagem. E um cachorro enorme, mas tão bobo quanto o seu tamanho.
Gouki escovou os dentes. Fez sua sessão de yoga e foi desarmar sua bicicleta.
Arrumou suas coisas no andar térreo da cabana e subiu para ver o que havia na parte de cima.
Estava vazia. Não tinha nada, exceto um colchão velho (muito velho) estirado no chão, um travesseiro sujo e algumas roupas que ele não identificou quais eram que estavam jogadas ali em volta.
Gouki almoçou e depois foi fazer sua revisão geral na bicicleta, sua grande companheira.
Stevan veio o visitar, perguntou a Gouki se estava tudo bem. Trocaram uma meia dúzia de palavras sobre uma meia dúzia de temas... tomaram um chá e depois Steban disse que iria a cidade.
Depois disso, mais perto do entardecer, Gouki subiu novamente para o andar de cima da cabana para ver se conseguia aproveitar ainda aquele colchão.
Gouki havia mudado de planos. Ao invés de ficar um dia, Gouki se disponibilizou de alguns dias, já que havia encontrado um bom lugar e agradável para ficar, teria tempo para escrever sobre algumas coisas.. pensar em outras e esboçar a continuação da sua jornada quase que espiritual.
Gouki, ao subir e se aproximar da cama, percebeu que o que havia jogado perto do colchão eram roupas íntimas femininas.
Estranhando um pouco aquilo, Gouki se aproximou e viu que não só se tratavam de roupas íntimas femininas, mas como também que estavam todas rasgadas.
E nesse momento Gouki também verificou que a sujeira do colchão era advinda de machas de sangue e no chão perto donde o colchão estava.
Gouki ficou um pouco aflito ao ver tudo aquilo e num primeiro momento pensou em sair dali, sem avisar ninguém e simplesmente seguir viagem.
Mas isso não seria algo efetivo para Gouki. Talvez a curiosidade nesse instante tenha sido a força maior e fez com que ele respirasse fundo e voltasse para o térreo e sentasse em seu saco de dormir.
Nesse instante Gouki teve diversos pensamentos, e em grande parte deles, pensamentos negativos acerca de tudo que acabara de ver com seus próprios olhos.
Era quase que como uma cena de algum filme policial.
Gouki tentava lutar, mas a cena que presenciara era tipicamente uma cena de um estupro, com certeza.
Ele ficou muito assustado.

Bom... aqui a história acaba.
Ou melhor... aqui esse conto se acaba, para dar espaço à segunda parte.
Sejamos sinceros à partir desse momento, e encaremos essas palavras realmente direcionadas a quem realmente saiba do que estou falando.
À priori, Gouki não existe, e é apenas personagem de uma história que serviu unicamente para introduzir e confrontar um par de ideias sobre um tema de uma tal... “libertação”... mas na verdade, o propósito aqui é muito mais de encarar certas realidades que talvez sejam difíceis de serem encaradas, mas que de uma forma crua e seca... são apenas as tais realidades.

Vejamos o que temos por aqui:
Gouki é um rapaz vegan comum (e tudo mais que pode estar ligado a isso de uma forma positiva, ou seja, igualmente ele é pro-life ou seja, à favor da vida sob quaisquer circunstâncias, vegetariano ortodoxo, segue uma linha de desenvolvimento espiritual e físico e alguns outros detalhezinhos) que experimenta um momento de sua vida ao estar frente a frente com o inimigo.
Eu não sei quanto aos que me lêem, mas particularmente eu sinto uma coisa dentro de mim que me faz acreditar que eu não teria um encontro muito amistoso com uma pessoa que sabidamente exerceu um ato de estupro.
É seguro que eu penso em toda essa teoria de paz, mas sinceramente essa teoria de paz católica de receber um tapa e oferecer a outra face realmente não condiz muito com minha personalidade. Realmente eu não sigo esse princípio e muitas vezes, atuo de uma forma verdadeiramente oposta a isso. E por isso eu realmente não sei qual seria a minha reação ao estar na pele de Gouki. Mas enfim, esse não é o tema!
Pois bem... na verdade, Gouki se deparou, ali naquele momento em que descobriu que estava em uma cabana cedida por um estuprador, com uma situação que talvez seja bem mais comum de nós mesmos enfrentarmos do que se pode imaginar.
A história tem o seu final, logicamente. E bem resumido (até porque isso aqui não é para ser o Livro de Viagens de Gouki Akuma), Gouki descobre finalmente que se tratava de um estuprador. Mas que depois de algumas conversas, viu que Steban não entendia o estupro como algo “errado”... e ele simplesmente praticava porque achava que era assim que ele conseguiria satisfazer seus desejos. Na verdade, ela não sabia nem o que era “estupro”.
Enfim, existem dois finais para essa fase da história de Gouki em Chantaria, na verdade. No primeiro final, Gouki reúne algumas informações sobre o estuprador, recolhe umas evidências, tira umas fotos, e decide levar consigo até a fronteira e ao sair do país onde ele estava, Gouki entrega todo o “dossiê” para a policia federal e ofereceu isso como denúncia humanitária (sim.. isso se pode fazer nas regiões fronteiriças de alguns países que aceitam intervenções da ONU – Organização das Nações Unidas).
O outro final se conta assim: depois de alguns dias, Gouki sumiu da cidade onde estava. Tempo o suficiente para cruzar a fronteira e depois de mais alguns dias, descobriram que Steban havia sumido também. Até hoje não se tem notícias de Steban na cidade. Dizem as más línguas que tão pouco houve grande comoção por parte dos moradores da cidade, afinal, no fundo, todos daquela cidade sabiam das atrocidades que Steban cometia, mas ninguém tinha tido até então, coragem de denunciá-lo.
Mas antes de tratarmos da escolha para um grande final para essa história (até porque o final já aconteceu, na vida real), acredito que o que esteja em voga nesse instante é: Onde é que você quer chegar com isso tudo?”
Bom... limitando-se mais uma vez ao tema de que estamos falando para aqueles que sabem o que estão lendo, o fato era criar essa análise em cima de um rapaz que se descobriu convivendo com um estuprador, e desta forma, fez seus princípios literalmente entrarem em choque!
Na verdade, eu penso que após o conhecimento de Gouki que estava do lado de estuprador, Gouki acabou tomando algumas atitudes bem especistas.
Vejamos...
Estupro, ou melhor... em sua conceituação social diz respeito somente à indivíduos da espécie humana, e mais especificamente sobre o gênero feminino dessa espécie.
Pois bem... não nos limitando em aspectos excessivamente ligados às espécies, acredito que fazer você entender que estupro é basicamente forçar uma relação sexual sem o consentimento de uma das partes é bastante lógico, certo?
Eu já li alguns livros de pesquisa apontando quase que diretamente a palavra “estupro” como sendo uma pratica também adotada por outras espécies de animais (no caso, algumas espécies de macacos, cujas sociedades estão baseadas no patriarcado).
Desta forma, podemos diretamente entender que uma vaca é estuprada nas fazendas leiteiras todos os dias.
Se tratarmos de violência ou não violência, acredito não ser totalmente diferente, mas confesso que ainda o meu próprio especismo me coloca numa situação de muito mais tensão ao imaginar uma cena de estupro de uma mulher, do que imaginar uma vaca sendo estuprada ou inseminada artificialmente.  
Desta forma... quem são os estupradores?

Quem são os estupradores?
E acima de tudo... Qual a relação que temos com eles?

Gouki, eu, você ou qualquer outro ser humano é capaz de vivenciar uma cena dessas.
Porém eu mesmo me coloquei diante desse dilema... ou até mesmo de lapidar ou simplesmente erradicar a raiva que eu tenho daquelas pessoas que estupram... que matam... que esfolam... que bebem seus sangues vermelhos ou brancos (leite).
Porque, no final das contas... não é o senhor Steban que esta errado (SOMENTE!). Se eu realmente estivesse na pele dessa tal Gouki, eu realmente estaria agora em um grande conflito interno, justamente tentando buscar respostas para saber o que fazer nesse caso específico em que se teve que entrar em contato com um fato extremamente violento à sua própria espécie para então buscar fundamento para lutar à favor de outras espécies.
Uma vez eu já estive envolvido em algumas discussões calorosas sobre aquelas tais perguntinhas de “melhor e pior”, como por exemplo: “é melhor deixar de comer carne ou deixar de tomar leite?”
No fundo... não vejo isso como melhor ou pior, até porque é quase que como te perguntarem: “Você quer morrer com um tiro na testa ou um tiro na boca?”
Desta mesma forma, porque ter tanta raiva assim do Steban? Ou melhor... ter uma postura “radical” em relação ao Steban seria o mesmo (ou deveria ser o mesmo) que aplicar o mesmo tratamento “radical” aos demais estupradores, e aqui nesse caso, os que também tomam seus leites frescos embalados em tetrapak ou embutido nas deliciosas manteigas do interior de Minas Gerais no Brasil.
Onde esta a violência então e por fim... onde esta o sentido de lutar e se lutar... e qual a intensidade de luta.
Aceitar o estupro... a morte... a escravização... ou simplesmente radicar-se contra isso?
E... não é de hoje que vemos pessoas que ainda teimam em não expandir seus limites, inclusive, especistas.
Salvar o mundo para muita gente é salvar os humanos.
Assim como eu também já cansei de ver gente que quase se mata para salvar a vida de um cachorro, mas é incapaz de ajudar uma senhora de idade a atravessar a rua.
No fim... tudo faz parte de uma só raiz que nasceu de uma só semente.
E o que fazer então agora? Podar as folhas, ou arrancar as raízes?
A terminologia “especista” aqui foi literalmente tatuada na testa de Gouki... E talvez na minha própria testa, pois eu confesso que se fosse eu, na pele de Gouki, provavelmente optaria pelo segundo final... Mas se eu aceitasse o segundo final para o Sr. Steban, quais seriam os finais de todos os outros que estupram?
E o final daqueles que escravizam?
E porque se arrepiar tanto com um sujeito que estava praticando algo que ela nem tinha IDEIA da gravidade... e não se arrepiar ao ver sua mãe, seu pai, seu irmão tomando um copo de sangue branco (leite)?
Isso foi para Gouki... entender que o especismo esta enraizado de uma forma egoísta à sua espécie... e que mudar isso, no final das contas, seria ser radical, no sentido literal da palavra, ou simplesmente... conivente com o estupro.

Fernando Sayuri